Setor cai 0,2% no mês; expectativa em pesquisa da agência Reuters era de alta de 0,8%
Em um movimento inesperado, as vendas do varejo no Brasil recuaram em fevereiro pressionadas pelas vendas de supermercados e combustíveis, ressaltando a reação lenta da economia marcada ainda pelo mercado de trabalho fraco.
A queda de 0,2%, na comparação com janeiro, foi o pior resultado para o mês em três anos, segundo dados do IBGE divulgados nesta quinta-feira (12).
Em relação a fevereiro de 2017, houve alta de 1,3%. Em 12 meses, o crescimento foi de 2,8%.
Analistas ouvidos pela Reuters esperavam um resultado bem diferente: alta de 0,8% na comparação mensal e de 3,5% sobre um ano antes.
"O mercado de trabalho está por trás desse movimento lento e gradual de vendas. É menos gente consumindo", disse a gerente da pesquisa no IBGE, Isabella Nunes, acrescentando que o consumo também foi afetado devido ao período de férias e de pagamentos de impostos.
"A recuperação está mais lenta e gradual desde o início do segundo semestre do ano passado. O varejo mantém trajetória de recuperação se olharmos para um período mais longo, mas perde ritmo na margem", completou.
Em fevereiro, o destaque negativo ficou exatamente para o setor de maior peso para o varejo. As vendas de hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo recuaram 0,6% em relação ao mês anterior.
Combustíveis e lubrificantes apresentaram o quarto resultado negativo seguido com queda nas vendas de 1,4%.
“Isso acontece porque temos uma recuperação do mercado de trabalho apoiada em ocupações informais, com menores rendimentos e benefícios limitados. Isso acaba influenciando o comércio também”, disse Nunes.
Na comparação com igual mês do ano anterior, os últimos 11 resultados foram positivos, mas fevereiro foi o mais baixo entre eles. Em setembro, a alta anual chegou a 6,2%.
Para a gerente da pesquisa, no entanto, o indicador acumulado mostra "muito claramente" uma recuperação "iniciada em outubro de 2016 em praticamente todas as atividades".
"Super e hipermercados tiveram grande impacto nessa recuperação, mas também na desaceleração em fevereiro”, afirma.
Além do mercado de trabalho ainda hesitante, três setores influenciaram no recuou de fevereiro: tecidos, vestuário e calçados (-1,7%), combustíveis e lubrificantes (-1,4%) e outros artigos de uso pessoal e doméstico (-0,8%).
“Dentre eles, o combustível teve o principal impacto negativo, pois o aumento de preços vem inibindo o consumo”, disse Nunes. O segmento teve o quarto resultado negativo seguido.
As vendas aumentaram para móveis e eletrodomésticos (1,5%), artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos, de perfumaria e cosméticos (0,8%), equipamentos e materiais para escritório, informática e comunicação (2,7%) e livros, jornais, revistas e papelarias (1,6%).
O varejo ampliado, que inclui veículos e material de construção, apresentou perdas de 0,1% no mês.
FRAQUEZA
Outros dados econômicos divulgados neste início de ano também mostraram maior fraqueza do que o esperado, o que tem afetado as projeções de crescimento para a economia como um todo.
Pesquisa Focus do Banco Central, que houve semanalmente uma centena de economistas, mostra que a projeção de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano é de 2,80%, sendo que mais no início do ano estava em 3%.
Em março, a confiança do comércio indica força ao atingir o nível mais alto em quase três anos, embora ainda mostre cautela entre os empresários, de acordo com a Fundação Getulio Vargas (FGV).
Fonte: Folha Online — 12/04/2018