Experimente deixar o celular em casa por um dia ou mesmo desligar a sua rede de internet enquanto faz seus relatórios de trabalho. É muito provável que seu dia seja extremamente desconfortável, ainda que imaginando a situação você não consiga perceber o tamanho do impacto que isso pode ter. Na verdade, subestimamos o poder dos hábitos que criamos porque muitas vezes eles surgem inconscientemente.
No livro "O Poder do Hábito", de Charles Duhigg, uma experiência interessante mostra qual é a chave para que os hábitos exerçam uma força tão poderosa sobre nós. O professor de neurociência Wolfram Schultz, da Universidade de Cambridge, fez alguns testes com macacos. Cada vez que uma forma geométrica colorida aparecesse em um monitor, eles deveriam puxar uma alavanca. A recompensa era algumas gotas de suco. De início, os macacos ficavam agitados, mas assim que percebiam que a tarefa resultaria em uma recompensa, passavam a ficar focados e executavam o exercício de forma cada vez mais automática.
Quando o hábito começava a surgir, a atividade cerebral apresentava oscilações mais expressivas assim que o suco chegava à boca dos macacos. Era o momento em que eles percebiam a recompensa e ficavam felizes. No entanto, com o passar do tempo, essa sensação de felicidade por perceber a recompensa começou a ser antecipada. Os macacos sentiam a euforia da recompensa assim que percebiam a alavanca. O experimento estava mostrando que ali nascia um anseio pelo que estaria por vir. Com base nisso, o professor alterou o experimento, algumas vezes não entregando a recompensa ou dando suco com pouco açúcar, por exemplo. Os macacos ficavam agitados e se mostravam depressivos quando não recebiam o que estavam esperando.
Por mais que não notemos, repetimos o comportamento dos macacos na experiência em quase tudo que fazemos rotineiramente. Isso explica, por exemplo, porque temos o impulso de pegar uma batata frita quentinha de uma porção que chega inesperadamente na mesa de um amigo, mesmo se não estivermos com fome. Ou mesmo porque ficamos tentados a entrar em uma churrascaria só pelo cheiro da carne assada. Explica também porque a mera imagem de uma caixa de cigarros é capaz de deixar um fumante agitado. A exposição da imagem gera o anseio pela dose de nicotina. Antes mesmo de nos satisfazermos com a recompensa de um hábito, somos impulsionados pelo anseio que ela gera. O que te prende ao celular e suas redes sociais durante o expediente é o anseio pelo momento de distração.
O marketing e a publicidade se alimentam disso o tempo todo. Todo o mercado existente hoje em dia em torno de produtos que deixam bons odores no ar surgiu a partir de uma intensa pesquisa da Procter&Gamble para lançar um produto. No fim das contas, eles descobriram que as pessoas que limpavam as casas utilizavam o produto ao final, como se o bom cheiro fosse uma recompensa pelo trabalho árduo de limpar. Sendo assim, toda a publicidade é moldada no sentido de criar expectativas para uma casa cheirosa.
Pense a respeito disso sempre que estiver o impulso de consumir alguma coisa, ainda que seja um hábito simples como pegar um biscoito sem estar com fome. Se você encontrar as deixas que te geram a ansiedade de consumir, pode facilitar o caminho para controlar seus hábitos.
Fonte: G1 — 10/02/2016