Muitos agentes econômicos no Brasil não enxergam o atual governo como sendo capaz de realizar as reformas fiscais, tidas como necessárias para permitir o início de uma recuperação econômica. Neste sentido, os pedidos de impeachment ganham força, tendo em vista a possibilidade de um novo governo realizar as reformas almejadas.
Os agentes econômicos formam expectativas sobre como o governo deveria reagir com a política fiscal e monetária aos diferentes cenários econômicos. Quando a opinião da média dos agentes econômicos sobre qual a melhor política a ser adotada diverge daquela do governo em exercício, investimentos são interrompidos e espera-se que aconteça alguma reversão no cenário político-econômico.
Além disso, os últimos acontecimentos no âmbito político - como a prisão do marqueteiro João Santana e de sua esposa, o pedido de prisão preventiva para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo Ministério Público de São Paulo, além de um provável acordo de delação premiada do ex-líder do governo, Delcidio Amaral -, contribuíram fortemente para que o mercado reforçasse as apostas no impeachment da atual presidente.
Segundo dados do Banco Central, em fevereiro o Brasil teve a maior saída de dólares para o mês desde 1982 – ano em que foi iniciada a série. O último dado mostrou uma saída líquida de US$ 9,294 bilhões do país.
Pelos princípios básicos da economia, a diminuição da oferta de dólares levaria ao seu encarecimento e, consequentemente, à desvalorização do real. No entanto, isso não ocorreu - apenas nas duas primeiras semanas de março, o dólar já apresentava uma queda de mais de 10% ante o real.
Em contrapartida, há também as vertentes que analisam o cenário de impeachment como sendo desfavorável, dado que este poderia se estender por um longo período, retardando ainda mais a realização de reformas.
Os contrários ao impeachment argumentam que a recente variação cambial se deve quase que exclusivamente à fatores políticos e que o Banco Central não considera reduzir os estoques de swaps cambiais neste momento de turbulência, sinalizando ao mercado que está atento às mudanças e disposto a intervir para manter um ambiente favorável.
Em 2002 tivemos outro exemplo de quando o cenário político é o fator predominante no câmbio . Diante da grande probabilidade de vitória de Lula nas eleições para a presidência da república naquele ano e a incerteza relacionada ao tipo de política que o seu governo poderia adotar, houve uma enorme fuga de capital, o que levou a valorização do dólar ante o real. O câmbio chegou a R$ 3,99 – maior cotação da história naquela época.
Para atualizar os valores e comparar com a cotação atual, devemos levar em conta a inflação brasileira e a norte-americana no período desde então. Se fossem atualizados com base no IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) e no CPI (Consumer Price Index, um equivalente ao IPCA americano), corresponderia hoje a aproximadamente R$ 6,87.
Apesar dos esforços do então candidato Lula e de sua equipe para acalmar o mercado, como as reuniões com banqueiros e grandes investidores e a publicação da Carta ao Povo Brasileiro – em que se comprometeu a não anular os contratos de dívida do país, manter o superávit fiscal e as metas de inflação -, a propaganda política suscitou incertezas que levaram à fuga de capital externo.
Os efeitos do cenário político na cotação do câmbio são tão notáveis agora quanto foram em 2002. Naquele ano, o que vimos foi a desvalorização do real ante o dólar. Nos últimos dias, em contrapartida, estamos vendo a recuperação da nossa moeda frente à divisa norte-americana. Às vezes a relevância dos fatos políticos para a economia é mais decisiva do que os fatos puramente econômicos.
Fonte: G1 — 16/03/2016