"Por isso, fui criticado por magistrados do país, sem uma voz sequer na categoria que me defendesse", disse.
Ele conta não se conformar quando vê notícias sobre o governo querer parcelar reajustes de aposentados e pensionistas. Por isso, pediu para não receber o seu.
Marques diz, porém, não ser contra o reajuste, "pois o trabalho de juiz é digno e importante". "Mas no momento isso significaria o empobrecimento de outras pessoas."
Após aprovação na última semana, os salários dos magistrados devem subir 16,38% por serem vinculados aos dos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), que passarão a ganhar R$ 39,3 mil. Em Minas, o rendimento médio é de até R$ 33.689,15.
Marques recebe mais que isso. O rendimento mensal dele, de R$ 41 mil líquidos, é superior inclusive ao dos ministros. De acordo com o juiz, isso ocorre devido a gratificações e aos 29 anos de serviços prestados. "E não há irregularidade", garante.
Apesar do pedido de Marques, o Tribunal de Justiça de Minas indeferiu sua solicitação sob a alegação de que salário é "irrenunciável".
Titular da 2ª Vara Cível de Juiz de Fora (MG), Marques atribui à sua formação familiar a decisão. O pai, Antonio de Arruda Marques, foi juiz da Justiça Militar Federal, mas teve de se aposentar em 1969 por força do AI-5 –um dos decretos mais autoritários da ditadura (1964-85).
Como o pai passou a ganhar dois terços do seu salário, a família –com outros quatro filhos– passou dificuldades. A situação piorou com a morte dele, em 1970.
"Comecei a trabalhar aos 17 anos e meus irmãos também precisaram ajudar de alguma forma."
Na internet, as críticas a ele foram pesadas. "Fui chamado de exibicionista, vaidoso, hipócrita e traidor. Mas o que fiz não foi nada demais."
"Não tenho vaidade, como me acusaram na internet. É que talvez quem não passou por isso não vai conseguir entender o motivo de eu ter tomado essa decisão de não querer receber o aumento."
"Esse dinheiro do reajuste não fará falta para mim, mas pode diminuir um pouco, por exemplo, o incêndio, como uma gota d′água."
Fonte: Folha Online — 08/06/2016