Como então lidar com esta queda da renda das famílias? Os economistas comportamentais têm algumas dicas para ajudar. Segundo estudos, a nossa capacidade de adaptação a novas realidades é muito maior do que estimamos – e isso pode ser usado a nosso favor.
Um exemplo: uma das primeiras pesquisas realizadas sobre felicidade comparou a satisfação geral com a vida em três grupos – paraplégicos, ganhadores de loteria e pessoas comuns. Os pesquisadores checaram os níveis de felicidade dos indivíduos dos três grupos um ano após perderem a mobilidade ou ganharem uma fortuna.
A descoberta foi impressionante: apesar de existirem certas diferenças nos níveis de felicidade entre os três grupos, elas foram bem menores do que o esperado – e bem perto do nível de felicidade considerado "padrão". Sempre esperamos que seremos muito mais felizes ou infelizes após um evento deste porte (como um grande acidente ou um prêmio de loteria) – e isso é verdade, mas só no curto prazo. No longo prazo, temos uma capacidade enorme de nos adaptarmos a novas realidades.
Estudos subsequentes confirmam estes resultados e mostram que um dos nossos maiores talentos é o potencial de adaptação. Com base neste conhecimento, podemos olhar para a perda de renda de outra forma. Apesar de acreditarmos que um aumento salarial pode trazer muita felicidade – e uma queda no padrão de vida pode trazer muita tristeza, a realidade é que nos acostumamos logo ao novo cenário.
Em uma pesquisa realizada no Reino Unido, descobriu-se que a satisfação com o seu emprego estava altamente correlacionada com as mudanças nos salários, e não com os salários em si. Ou seja: nos acostumamos sempre com nosso nível de pagamento, seja ele alto ou baixo. O que mais nos impacta é a queda dele – mas mais no curto prazo.
Para quem está sofrendo com uma redução no padrão de vida, estudos mostram que é melhor mudar os hábitos de consumo todos de uma vez. Para nos acostumar com a nova realidade, é necessário fazer todos os ajustes de uma vez só. Se você decide primeiro cortar o plano de TV a cabo, depois passar a fazer as compras em atacarejos e por fim vender o carro, o sofrimento não acaba nunca. Assim que você começa a se acostumar, vem novamente uma mudança difícil. É melhor fazer tudo o que precisa ser feito logo – e contar com a nossa capacidade de adaptação para sofrer menos com o novo cenário.
Fonte: G1 — 07/07/2016