A estatística nos faz aprender e cantar músicas que não gostamos, bem como é usada por grandes redes para nos convencer a consumir mais - e até mesmo direcionar nossas compras. A verdade é que estamos muito mais expostos a inputs de consumo do que acreditamos. As táticas de marketing vão muito além dos anúncios vermelhos sobre promoções ou da disposição estratégica de produtos em lojas - isso já é coisa do passado.
Analisemos, primeiramente, a questão dos hits musicais. Na verdade, é preciso ter muito mais do que simplesmente talento para estourar no mundo da música. Grandes rádios mundiais contam com o suporte de programas que são capazes de prever as chances de determinada música estourar como um grande sucesso - analisando estatisticamente a harmonia, o ritmo, a melodia, entre outros elementos.
Entre os fatores considerados, é muito importante que a música desperte um senso de familiaridade quando for tocada. Do ponto de vista neurológico, o cérebro sente certo tipo de conforto quando se depara com um som que parece familiar. Na verdade, isso é um traço evolutivo: a familiaridade funciona para que saibamos selecionar os sons que realmente são relevantes para a nossa atenção. Não fosse isso, entraríamos em parafuso absorvendo uma enxurrada de informação auditiva, especialmente em locais de grande aglomeração.
No livro "O Poder do Hábito", o autor Charles Duhigg dá o exemplo de como a indústria fonográfica agiu para transformar a música Hey Ya!, do grupo Outkast, em um sucesso mundial. Inicialmente, ela tinha os atributos estatísticos para cair no gosto popular, exceto pela familiaridade - a batida destoava muito de todas as outras músicas que estavam entre as mais tocadas. A solução? Torná-la familiar. A estratégia adotada foi instruir as rádios a tocarem a música entre outras duas que já tinham estourado. Isso evitava que os ouvintes mudassem de estação e trouxe Hey Ya! para a rotina das pessoas.
Assim como a indústria fonográfica é capaz de te convencer a ouvir uma música - mesmo que não goste dela -, o varejo pode prever o que você vai desejar consumir. Duhigg cita o exemplo do estatístico Andrew Pole, uma das figuras mais importantes dentro da rede varejista Target.
Uma prateleira de barras de cereais pode abranger perfis de consumidores completamente diferentes. O produto pode ser colocado no carrinho do jovem que leva uma vida saudável e pratica exercícios regularmente, como também pode entrar nas compras de um estudante que precisa de lanches práticos para consumir durante uma prova. O objetivo de Pole foi criar uma enorme base de dados capaz de entender cada consumidor com base nos produtos colocados no carrinho.
O cruzamento de produtos é capaz de indicar o perfil do consumidor e o momento de vida pelo qual ele passa - para que a empresa possa direcionar os produtos que terão descontos e quais outros indicar em panfletos comerciais. Tudo isso, somado a outros dados que são obtidos com base nos cadastros dos clientes, bem como informações demográficas, ajudam a refinar ainda mais o poder de "previsão" das estatísticas.
Por um lado, tudo isso pode parecer o mapa da mina para os profissionais de marketing. No entanto, os folhetos de oferta personalizados sugerem aos consumidores que as companhias sabem demais sobre suas vidas particulares - e essa invasão de privacidade é incômoda. A solução encontrada pela Target foi misturar as sugestões específicas para cada tipo de consumidor com outras aleatórias, de modo que não fica nítido que a empresa tem tantas informações a respeito do consumidor.
Em suma, tendemos a acreditar que nossas decisões são totalmente racionais e que somos completamente capazes de bloquear as influências das propagandas e ações de marketing. No entanto, essas inferências estão muito além do que os nossos olhos podem ver. É bem provável que você ainda decore muitos refrões de música que detesta, bem como algumas lojas vão continuar "adivinhando" o que você precisa comprar.
Fonte: G1 — 27/09/2016