Ela se matriculou em um curso de educação financeira e levou junto o marido, o também vendedor Celso Alves, 33. O curso foi realizado num sábado, em São Paulo, onde moram, durante o dia inteiro, com outras 30 pessoas.
Lá, receberam orientações de como gastar de forma consciente, e não fazer compras por impulso. Também aprenderam que é preciso ter metas para poupar.
"Foi importante para mudar a nossa mentalidade em relação ao dinheiro. Ficamos extremamente motivados e já estamos conseguindo poupar cerca de 20% da nossa renda", diz a vendedora, cujo objetivo é comprar uma casa.
Como eles, outras famílias estão buscando orientação para lidar melhor com as finanças. Profissionais do setor têm notado um aumento deste segmento nos últimos anos, sobretudo com o agravamento da crise econômica. Segundo a empresa de educação financeira DSOP, esse público aumentou 20% no primeiro semestre deste ano, na comparação com o mesmo período de 2015.
"Muitas dessas pessoas estão endividadas e sofreram queda na renda", afirma Reinado Domingos, presidente da DSOP e da Abefin (Associação Brasileira de Educadores Financeiros).
Para o planejador financeiro Fabiano Calil, em época de crise é comum que famílias busquem orientação por causa das incertezas em relação ao futuro. "Além disso, percebemos que gerações diferentes começam a buscar relações mais transparentes no que se refere às finanças", diz Calil, que já atendeu grupos de até 30 pessoas, incluindo avós, pais, filhos e netos.
Segundo o educador financeiro Vinicius Azambuja, da empresa Novi, o planejamento financeiro dá mais resultado quando envolve toda a família. "Tem que ter sinergia e transparência para funcionar, porque não adianta um construir e o outro destruir."
CORTE DE DESPESAS
Azambuja costuma atender muitos casais, como a dona de casa Sheila Centeno, 35, e o gerente de vendas Luciano Centeno, 31. Como moram em Londrina (PR) e Azambuja fica em São Paulo, o atendimento é feito via Skype. "Eu tive a ideia de buscar ajuda para organizar as finanças porque percebi que a situação estava ficando mais apertada com a inflação; temos duas filhas pequenas e apenas meu marido está trabalhando", diz Sheila.
"Eu trabalho em uma multinacional, viajo muito, e não estava tendo tempo de cuidar das finanças", diz o marido. Ele afirma que, com a ajuda do educador, o casal fez uma avaliação das despesas e já eliminou vários gastos supérfluos.
Eles reduziram a conta de energia elétrica e o pacote de TV paga e cortaram um seguro considerado desnecessário, por exemplo. As compras da casa são feitas por Sheila, que se organiza para ir aonde é mais barato e aproveitar as promoções.
Com os cortes no orçamento familiar, foi possível reduzir as despesas mensais entre R$ 1 mil e R$ 1,5 mil, diz o gerente de vendas. "Nos demos conta de que gastávamos mais do que precisávamos e entrávamos no cheque especial sem a menor necessidade", afirma.
O casal já tinha investimentos, mas o principal objetivo agora é formar uma reserva para possíveis emergências.
PREÇOS
Os preços para fazer um curso ou receber orientação de um planejador financeiro variam conforme o prazo, o número de pessoas envolvidas, o prestador de serviço e a complexidade de cada caso. Uma consulta com planejador pode custar a partir de R$ 300, enquanto um workshop de quatro horas sai a R$ 250 por pessoa e um curso de oito horas, cerca de R$ 450. Grupos familiares podem ter descontos.
A advogada Cinthia Castro, 51, resolveu matricular toda a família em um curso de educação financeira. Ela diz que sua filha, que tem 19 anos e está na faculdade, começou a fazer estágio e queria aprender a usar o dinheiro.
"Primeiro foram minha filha e meu marido fazer o curso. Eu ia fazer com o meu filho, de 17 anos, mas acabei mandando a namorada dele no meu lugar, pois achei que seria mais importante para ela", afirma a advogada.
Segundo ela, a família aprendeu a anotar todas as despesas e a fazer planejamentos de curto, médio e longo prazos. Ela diz que gostou tanto da ideia que presenteou o filho de sua secretária com o mesmo curso, quando ele completou 18 anos.
OBJETIVOS
Os principais objetivos do público em relação à orientação financeira são o planejamento de aposentadoria e de investimentos e o gerenciamento de orçamento e dívidas, segundo uma pesquisa realizada em 2015 pelo FPSB (Financial Planning Standards Board), conselho que reúne e supervisiona entidades de planejamento financeiro em 26 países.
O levantamento, para o qual foram entrevistadas 19 mil pessoas, em 19 países, incluindo o Brasil, mostrou ainda que apenas 17% das pessoas afirmaram que têm muito conhecimento sobre questões financeiras. Cerca de 22% declararam estar confiantes de que vão atingir seus objetivos financeiros e 32% já possuíam um plano financeiro por escrito.
Entre os assuntos de interesse dos entrevistados destacaram-se estar livre de dívidas; estar preparado para uma emergência; comprar a casa própria; planejar a aposentadoria; gerenciar as próprias finanças; e ajudar outras pessoas financeiramente.
Os dados foram fornecidos pelo IBCPF (Instituto Brasileiro de Certificação de Profissionais Financeiros), associado ao FPSB.
Fonte: Folha Online — 24/10/2016