João Batista da Silva, de 53 anos, perdeu o emprego há cerca de 120 dias.
Mais precisamente em 11 de abril, conta o ex-auxiliar de limpeza, que demonstra profunda preocupação com as contas em atraso.
"Serviço é como a maré, ora tem demais, ora de menos", diz Silva, ao ressaltar que seu telefone tocava mais quando estava empregado.
Silva é o retrato da parcela da população que mais sofre com as altas taxas de desemprego e que mais tempo leva para ser favorecida pelos primeiros sinais de retomada, o grupo com baixa instrução.
Maurair Araújo, 44 anos, perdeu o emprego há cerca de um ano. Contratado por uma empresa que prestava serviços à Prefeitura de São Paulo, operava a máquina que corta a grama de praças e de canteiros e hoje ajuda a engrossar um pelotão de desempregados de média escolaridade.
A taxa de desemprego entre aqueles com ensino médio incompleto é a maior e chegou a 21,8% no fim do segundo trimestre do ano.
Alagoano, Araújo está há 23 anos em São Paulo e afirma que nunca ficou tanto tempo sem trabalho.
Já Pamela Pereira, 20 anos, ex-promotora de eventos, diz que nem um curso de cabeleireiro feito há alguns meses a ajuda a retornar ao mercado de trabalho.
Todos eles, desde que perderam o emprego, incorporaram à rotina idas ao Bom Prato, uma rede de restaurantes populares do governo de São Paulo e que oferece almoços diariamente a R$ 1.
Um contingente crescente de desempregados procura uma das 52 unidades do Estado em busca de uma das 85.750 refeições fornecidas diariamente, aponta pesquisa feita pela rede.
Levantamento entre abril de 2016 e março de 2017 mostra que 17,4% dos frequentadores estão sem emprego –a taxa de desemprego no Estado era de 14,2% no primeiro trimestre. Em 2015, os desempregados eram 8% dos frequentadores da rede.
"Passei a comer duas vezes, uma atrás da outra, já que só como de novo à noite", diz Fernando Santos Almeida, 26 anos, há mais de dois sem emprego.
Por volta das 12h30, hora disputada no Bom Prato de Brasilândia, na zona norte de São Paulo, a reportagem encontrou até mesmo um ponto fora da curva: Gustavo Xavier, 35, sem emprego mesmo com diploma de jornalismo.
Embora o grupo dos mais escolarizados demore mais a ser atingido pela crise e saia dela com mais facilidade, Xavier está há três anos à procura de emprego e aproveita a proximidade de casa e o custo para almoçar no lugar.
Após encarar bicos como manobrista e se deparar com muitas portas fechadas, se diz mais otimista.
Fonte: Folha Online — 27/08/2017