Fatine tinha apenas três anos quando foi levada ao pediatra para investigar por que ela caia muito. O problema foi agravando e a menina precisou de prótese para andar. Depois dos sete, passou a utilizar cadeira de rodas.
Anos depois, recebeu o diagnóstico de distrofia muscular, doença degenerativa ainda pouco conhecida à época. A sua era do tipo severa e a fazia perder as forças com o tempo. Os médicos apontaram uma expectativa de vida de no máximo 20 anos.
A sentença podia ter sido uma barreira, mas se tornou impulso para a mineira, nascida em Ribeirão das Neves, em 1984. Apesar de tudo, sempre foi muito alegre e com sorriso largo.
"Ela procurou viver intensamente, mesmo com todas as limitações. Sempre teve esse sorriso que virou a marca dela, brincava com os primos e frequentava a escola", diz a irmã, Fabiana da Conceição Oliveira, 45.
Mas os obstáculos existiam. Para garantir que ela conseguisse estudar, os pais precisaram arcar com uma escola particular que tinha acessibilidade. No ensino médio, voltou para o colégio público e enfrentou preconceitos. Encontrava apoio nos amigos e primos, que sempre a rodeavam.
Foi muito dedicada aos estudos. Formou-se publicidade e propaganda pelo Centro Universitário Newton Paiva, em 2011. Depois, fez mestrado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde também era doutoranda. Também chegou a atuar como professora de pós-graduação na PUC Minas.
Desenvolveu estudos sobre corpos de mulheres com deficiência nas redes sociais. A pesquisa foi transformada na exposição "Corpos Sem Filtro: narrativas visuais de mulheres com deficiência", em 2021, no Memorial Vale.
Essas vivências a levaram a engajar-se em coletivos sociais. Tornou-se ativista na luta contra o racismo e pelos direitos das pessoas com deficiência.
Foi uma das fundadoras do coletivo feminista Helen Keller e integrou o movimento Vidas Negras com Deficiência Importam. Colaborou na comunicação das organizações e também na articulação de integrantes, além de participar de eventos como a Marcha das Mulheres em Brasília.
"Fatine sempre se posicionava. Dificilmente as coisas passavam despercebidas por ela. Era uma voz sempre pronta para chamar a gente para a luta, mas de maneira acolhedora e sincera", diz a ativista Mila D'Oliveira, 38.
Sua rotina era costurada por cafezinhos. Todos os dias, às 10h30 e às 16h tomava um pouco, até nos dias mais quentes.
Gostava muito de viajar, ir ao cinema ou apenas dar uma volta nos shoppings. Tudo era pretexto para bater um papo.
Morreu no último dia 2 de janeiro, aos 41 anos, em decorrência da doença. Deixa os pais, Messias, 76, e Dalva, 73, e os irmãos Flavio, 48, e Fabiana, 45. Também ficam o namorado, Leonardo, os sobrinhos Juliana e Rodrigo e a sobrinha-neta Helena.
coluna.obituario@grupofolha.com.br
Veja os anúncios de mortes
Veja os anúncios de missa
Fonte: Folha Online